Raramente checo meus e-mails. Talvez de três em três meses eu dê uma passada pra excluir uma grande maioria que não me chama nem um pingo de atenção. Num desses raros dias, me deparo com uma mensagem de um endereço desconhecido. Eu, curiosa e desconfiada, abri o e-mail. Ali um texto esperava ser lido por mim. Mentalmente, comecei:
"Sei de longe quem é você, visito seu blog, mas nunca tive coragem pra te adicionar, pra deixar um comentário ou te seguir. Não que eu ache que você escreva bem. Não acho nada. Suas ideias também não tem muito a ver comigo, mas são suficientemente loucas, ou melhor, anormais, para que você compreenda esta minha atitude.
Sempre senti essa necessidade de falar com um desconhecido sobre coisas de meu interior, mas não é tão simples como parece. Não dá pra chegar para um cara sentado num banco de uma praça e começar a falar, falar e falar. Ele pode me achar uma louca ou tentar me dar conselhos, e eu não quero conselhos. (Quase nunca ouçou nem peço um coselho.) Além disso ele saberia o som da minha voz, gravaria o meu rosto e, por ter mantido contato comigo, se tornaria um conhecido. Mas com você é diferente... Você não sabe quem eu sou e provavelmente nunca saberá.
Tô me sentindo mal e não posso recorrer a ninguém próximo agora porque meu problema é justamente com as pessoas próximas. É com as próximas, com as distantes, com as que nunca vi, com todas, na verdade.
Se na minha frente, agora, achasse calmantes, eu tomaria; se achasse um buraco que me ocultasse de tudo, inclusive de mim mesma, eu entraria nele; se de humano eu passasse a ser um átomo, eu aceitaria. Nada faz efeito em mim... Nada! Fotografar, que é uma coisa que tanto amo fazer, só conseguiu me manter estável bem por alguns minutos. Nenhuma música se parece comigo agora. Tenho lido um livro que é até bacana e triste, mas não quero me consolar nas mágoas de alguém agora, independente desse alguém ser somente o personagem de um livro... Antes a tristeza alheia me fazia sentir melhor, mas esse analgésico (e outros que aqui citei) não me curam mais de dor nenhuma.
Drogas alternativas... É sempre bom estar drogado, seja do que for, e se aproveitar do efeito. Enquanto o efeito dura, estamos bem. E pra estar bem precisamos ter estado mal antes. E é um barato estar mal: você vê as coisas com outra percepção, com outra sensibilidade, enxerga o que nunca tinha visto antes... é ruim e eu não quero estar assim, mas é um barato.
Eu estou mal, sem ter com quem conversar e sem coragem pra ligar pra alguém e começar a conversar sobre banalidades. Quero que alguém me entenda perfeitamente, no sentido mais límpido dessa ideia. Só isso. Daria tudo por isso.
Eu sou minúscula. Quantas pessoas existem? Quantas dela eu conheço? Quantas delas vou conhecer? Quantas delas já se foram antes mesmo que eu vinhesse? Meu Deus, e todas únicas! Eu sou minúscula. Eu, dizendo essas coisas a você, sou só mais um humano diferente de todos os outros humanos, como cada pessoa é. Você não me compreende. Ninguém compreende ninguém, é tudo interpretação. E só lhe conto essas coisas por achar que você vai interpretar isso tudo de uma maneira plausível. Hoje, estar-lhe escrevendo essas palavras é minha droga, é meu analgésico, é a única coisa que consegue camuflar minha solidão. Eu não me sinto mais só. Drogada eu não estou só.
Tudo aquilo por que temos apego é perfeito até um certo ponto; depois, de um jeito ingratamente traiçoeiro, a goiaba revela sua minhoca . Inevitavelmente, esperamos demais das pessoas - a gente pode tentar correr, mas nunca alcança nossos corações. Nos damos conta de nossos sentimentos, confiamos em gente sacana, rompemos discrições, acreditamos nas suas promessas e nas suas palavras. Malditas palavras! Como odeio as palavras. Pra mim, palavras não dizem coisa alguma. Ah! Mas vá dizer isso a meu coração...
Eu escrevo porque tento pôr pra fora (inutilmente) meus sentimentos. Só que o que eu sinto é diferente do que eu penso. Minhas ideias são explicáveis, minhas emoções não! Ninguém tange meu coração e vice-versa. Minha carta é tão inútil quanto um verbete de um dicionário: por mais que você leia o significado de uma palavra que não consegue entender, ela só ganha sentido quando você sente.
E não, eu não estou só, eu não me sinto só, eu sou só!"
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