E no seu apartamento
Ela se esquecia de tudo
Não havia contratempo
Ela segurava o seu coração
E largava as roupas pelo chão
(Princesa - Ludov)
Nestas últimas horas, estive num motel. Não sei se vocês têm este conhecimento, mas eles não são somente dedicados à atividade sexual entre duas ou mais pessoas. Esse tipo de estabelecimento não é necessariamente um lugar feito para transar, mas sim para garantir privacidade - seja ela de uma, duas, três, quatro... pessoas ao mesmo tempo. Há quem alugue um quarto de motel com a finalidade de ficar lá sozinho. Eles também podem ser pequenos hotéis à beira de estradas com estacionamento para carros. (Suponho eu que esses aí sejam destinados ao repouso de viajantes com mais de mil quilômetros a percorrer; o pernoite também deve ser barato. E ainda me ponho a imaginar o motivo pelo qual um motel é estereotipado como "lugar para fazer sexo": como não havia melhor local para ir, era para lá onde caminhoneiros costumavam se dirigir com essas putas de estrada).Ela se esquecia de tudo
Não havia contratempo
Ela segurava o seu coração
E largava as roupas pelo chão
(Princesa - Ludov)
Gastei bem mais do que podia alugando, por quatro horas, uma belo apartamento cheio de coisas - as quais não me seriam úteis, exceto o solário, o espelho no teto, a banheira de hidromassagem e o ar-condicionado.
Assim que entrei, tirei a mochila pesada das costas e peguei meu celular para desligar o útil e detestável aparelho. O devolvi à mochila e coloquei ela em um canto. Depois descalcei meus pés e senti certo alívio por também ter-me livrado das sapatilhas um pouco apertadas. Me despi. Tirei tudo, inclusive meus óculos, enfeite de cabelo, brincos e até mesmo meu relógio. Lavei bem meu rosto até a maquiagem toda sair. Feito isto, me olhei num espelho embutido verticalmente na parede e refleti um pouco.
-Estou pronta - conclui eu, da mesma maneira que uma mulher vaidosa faz quando acaba de se arrumar; porém, ao avesso.
Novamente, fui até a mochila, retirando de lá um maço de cigarros e um isqueiro pouco usado. Fui para o solário e por lá fiquei... por um bom tempo, o tempo suficiente. Anoitecia e eu podia assistir ao final da tarde sossegadamente. Acendi um cigarro e comecei a fumar no parapeito deixando minha imagem exposta às árvores altas em minha frente; eram a minha única companhia, então a ausência de roupas era insignificante. Enclausurada por mim mesma naquele quarto, eu sentia uma liberdade gigantesca e triste enquanto pensava nos motivos pelos quais eu me encontrava fumando naquele instante.
***
Lá fora eu era mais um alguém na multidão um tanto insatisfeito com sua própria vida: estava me graduando em um curso indesejado por mim a mando de minha mãe, tinha um trabalho do qual eu ficaria saturada caso demorasse mais de um ano fazendo a mesma atividade, vivia meus dias acompanhada de gente de quem nem gostava direito, mudava de planos a cada dois meses e no fim das contas me via confusa, sem saber distinguir o que eu queria do que eu podia e do que eu faria.Eu não sei se é por estar virando gente grande, mas neste momento da (minha) vida, quero morar só. Dia desses acordei e tinha ninguém além de mim em casa - sensação maravilhosa. Me senti uma princesa pelas duas horas seguintes. Depois delas, minha mãe - que por sinal não está falando comigo - chegou em casa e eu passei a ser a mesma Raisa de quase sempre. Porém, há algumas horas atrás, tive essa emoção mais uma vez, da forma mais inconsequente possível, sem receio de ser interrompida.
***
Cigarro acabado, me deitei na cama sob o espelho do teto. Não movi sequer os olhos e desconfiei que pareceria um cadáver fresco para quem me visse ali. O corpo parecia não trabalhar, mas minha mente estava muitíssimo viva.Eu sonhava acordada... Morava sozinha em um apartamento num prédio confortável. (Ô coisa poética que é apartamento!) Dava um "bom-dia" sorridente ao porteiro e era gentil com o vizinho quando ele deixava cair alguma coisa no chão. As dificuldades também existiriam, é claro, contudo eu as desconhecia, afinal empecilhos não se atreveriam a invadir um sonho.
Depois fitei meus próprios olhos, me dando conta da realidade física por que estava rodeada. E, casualmente, fui além. Me espantei, mas não precisei arquear as sobrancelhas - tudo acontecia na minha consciência, o concreto era dispensável.
Olhos nos olhos: eu não era mais eu, eu era duas. Deitada na cama, o medo e o espanto tomavam conta de uma de mim; no reflexo preso no espelho, a outra se mostrava sem pudor, e isto me atordoava. O reflexo visto no espelho era meu, todavia não era com aquela pessoa que eu estava habituada a viver vinte e quatro horas por dia. Foi como se eu saísse de mim e me observasse externamente pela primeira vez. Dois pares de olhos castanhos exata e perfeitamente iguais um ao outro se encaravam da mesma forma, assim, fixamente. Apesar disto, as sensações eram diferentes: enquanto um era curioso e se preocupava em analisar, o outro tinha medo. Este outro era o de quem vos escreve agora; e ele não aguentou. Pus meu antebraço sobre minha visão e saí daquele abismo. Voltei a perceber o ambiente e notei que o ar condicionado estava ligado e eu sentia frio. Me enfiei no edredom procurando me aquecer, como se aquilo me fizesse sentir protegida...
Continuei com minhas angústias e próximo à hora de ir embora, entrei na banheira, uma água deliciosa. Banho sempre é capaz de renovar a gente. Aliás: um momento de princesa, mesmo sendo tristemente reflexivo, é capaz de renovar a gente. Recoloquei tudo o que era meu no lugar: óculos, brincos, cabelo, maquiagem e roupa. Inclusive minha própria consciência, a qual me dizia: "princesa, dê 'adeus' ao seu reino e vá ser mais uma súdita desta vida." Saí do quarto e obedeci.
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Nota: Como muita gente tem perguntado para mim a mesma coisa, vai aqui um esclarecimento para a sua possível dúvida após ler esta postagem: se o texto é ou não autobiográfico, a decisão cabe a você; mesmo que eu não passe de uma amadora, "minha atroz função", segundo Mario Quintana, "não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele".
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