domingo, 29 de abril de 2012

Princesa

E no seu apartamento
Ela se esquecia de tudo
Não havia contratempo
Ela segurava o seu coração
E largava as roupas pelo chão
(Princesa - Ludov)

Nestas últimas horas, estive num motel. Não sei se vocês têm este conhecimento, mas eles não são somente dedicados à atividade sexual entre duas ou mais pessoas. Esse tipo de estabelecimento não é necessariamente um lugar feito para transar, mas sim para garantir privacidade - seja ela de uma, duas, três, quatro... pessoas ao mesmo tempo. Há quem alugue um quarto de motel com a finalidade de ficar lá sozinho. Eles também podem ser pequenos hotéis à beira de estradas com estacionamento para carros. (Suponho eu que esses aí sejam destinados ao repouso de viajantes com mais de mil quilômetros a percorrer; o pernoite também deve ser barato. E ainda me ponho a imaginar o motivo pelo qual um motel é estereotipado como "lugar para fazer sexo": como não havia melhor local para ir, era para lá onde caminhoneiros costumavam se dirigir com essas putas de estrada).
Gastei bem mais do que podia alugando, por quatro horas, uma belo apartamento cheio de coisas - as quais não me seriam úteis, exceto o solário, o espelho no teto, a banheira de hidromassagem e o ar-condicionado.

Assim que entrei, tirei a mochila pesada das costas e peguei meu celular para desligar o útil e detestável aparelho. O devolvi à mochila e coloquei ela em um canto. Depois descalcei meus pés e senti certo alívio por também ter-me livrado das sapatilhas um pouco apertadas. Me despi. Tirei tudo, inclusive meus óculos, enfeite de cabelo, brincos e até mesmo meu relógio. Lavei bem meu rosto até a maquiagem toda sair. Feito isto, me olhei num espelho embutido verticalmente na parede e refleti um pouco.
-Estou pronta - conclui eu, da mesma maneira que uma mulher vaidosa faz quando acaba de se arrumar; porém, ao avesso.
Novamente, fui até a mochila, retirando de lá um maço de cigarros e um isqueiro pouco usado. Fui para o solário e por lá fiquei... por um bom tempo, o tempo suficiente. Anoitecia e eu podia assistir ao final da tarde sossegadamente. Acendi um cigarro e comecei a fumar no parapeito deixando minha imagem exposta às árvores altas em minha frente; eram a minha única companhia, então a ausência de roupas era insignificante. Enclausurada por mim mesma naquele quarto, eu sentia uma liberdade gigantesca e triste enquanto pensava nos motivos pelos quais eu me encontrava fumando naquele instante.
***
Lá fora eu era mais um alguém na multidão um tanto insatisfeito com sua própria vida: estava me graduando em um curso indesejado por mim a mando de minha mãe, tinha um trabalho do qual eu ficaria saturada caso demorasse mais de um ano fazendo a mesma atividade, vivia meus dias acompanhada de gente de quem nem gostava direito, mudava de planos a cada dois meses e no fim das contas me via confusa, sem saber distinguir o que eu queria do que eu podia e do que eu faria.
Eu não sei se é por estar virando gente grande, mas neste momento da (minha) vida, quero morar só. Dia desses acordei e tinha ninguém além de mim em casa - sensação maravilhosa. Me senti uma princesa pelas duas horas seguintes. Depois delas, minha mãe - que por sinal não está falando comigo - chegou em casa e eu passei a ser a mesma Raisa de quase sempre.
Porém, há algumas horas atrás, tive essa emoção mais uma vez, da forma mais inconsequente possível, sem receio de ser interrompida.
***
Cigarro acabado, me deitei na cama sob o espelho do teto. Não movi sequer os olhos e desconfiei que pareceria um cadáver fresco para quem me visse ali. O corpo parecia não trabalhar, mas minha mente estava muitíssimo viva.
Eu sonhava acordada... Morava sozinha em um apartamento n
um prédio confortável. (Ô coisa poética que é apartamento!) Dava um "bom-dia" sorridente ao porteiro e era gentil com o vizinho quando ele deixava cair alguma coisa no chão. As dificuldades também existiriam, é claro, contudo eu as desconhecia, afinal empecilhos não se atreveriam a invadir um sonho.
Depois fitei meus próprios olhos, me dando conta da realidade física por que estava rodeada. E, casualmente, fui além. Me espantei, mas não precisei arquear as sobrancelhas - tudo acontecia na minha consciência, o concreto era dispensável.
Olhos nos olhos: eu não era mais eu, eu era duas. Deitada na cama, o medo e o espanto tomavam conta de uma de mim; no reflexo preso no espelho, a outra se mostrava sem pudor, e isto me atordoava. O reflexo visto no espelho era meu, todavia não era com aquela pessoa que eu estava habituada a viver vinte e quatro horas por dia. Foi como se eu saísse de mim e me observasse externamente pela primeira vez. Dois pares de olhos castanhos exata e perfeitamente iguais um ao outro se encaravam da mesma forma, assim, fixamente. Apesar disto, as sensações eram diferentes: enquanto um era curioso e se preocupava em analisar, o outro tinha medo. Este outro era o de quem vos escreve agora; e ele não aguentou. Pus meu antebraço sobre minha visão e saí daquele abismo. Voltei a perceber o ambiente e notei que o ar condicionado estava ligado e eu sentia frio. Me enfiei no edredom procurando me aquecer, como se aquilo me fizesse sentir protegida...
Continuei com minhas angústias e próximo à hora de ir embora, entrei na banheira, uma água deliciosa. Banho sempre é capaz de renovar a gente. Aliás: um momento de princesa, mesmo sendo tristemente reflexivo, é capaz de renovar a gente. Recoloquei tudo o que era meu no lugar: óculos, brincos, cabelo, maquiagem e roupa. Inclusive minha própria consciência, a qual me dizia: "princesa, dê 'adeus' ao seu reino e vá ser mais uma súdita desta vida." Saí do quarto e obedeci.
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Nota: Como muita gente tem perguntado para mim a mesma coisa, vai aqui um esclarecimento para a sua possível dúvida após ler esta postagem: se o texto é ou não autobiográfico, a decisão cabe a você; mesmo que eu não passe de uma amadora, "minha atroz função", segundo Mario Quintana,
"não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele".

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