– Se você tivesse um cachorro e morresse, com quem ele ia ficar? – perguntou a Mulata.
A Morena não precisou responder com palavras. Só seu olhar sério fez a outra começar a falar de novo.
– Ah, qual foi? Todo mundo vai morrer um dia.
– Eu sei, mas não queria que você falasse disso agora.
– Por quê?
– Já disse que não tô afim dessa conversa. Respeite isso.
– É uma coisa que pode acontecer um dia, oras... Você ia querer deixar seu cachorro entregue ao nada?
– Porra, você me tira do sério, viu! Na moral!
A mulata deu uma risadinha convencida e disse:
– Você me ama, mesmo assim.
– Ó, se eu me retar de verdade eu vou embora! Tô dizendo! Ora porra!
Silêncio por uns dois minutos. Elas olham para o nada; uma, aborrecida, outra, pensativa.
– Eu vejo a morte de duas maneiras – fala a Morena. – Quando eu fico viajando pr’onde é que eu vou, como vai ser na hora que eu morrer e pá. Essa daí não dói. Mas quando é da outra maneira acontece diferente... eu fico pensando como é que vai ser se eu perder alguém. Acho que não tô preparada.
– Pô – prossegue a Morena –, eu queria saber como é na hora que morre... Vem um monte de coisa sem nexo na cabeça. Eu não queria ir pra deixar tudo aqui, mas é um mistério que dá pra descobrir. Às vezes, eu queria morrer.
– Se matar? – diz a Mulata
– Podia ser, mas só se tivesse volta.
– Hmm, saquei. Mas a morte não te machuca?
– Também, de vez em quando. Eu começo a sentir saudade diss’aqui, das pessoas, de viver... Acho que sem a morte as pessoas não dariam valor à vida, ao tempo que a gente tem pra viver. E quando eu mais penso na vida, é quando eu penso na morte...
– Saquei. Tô indo... tá tarde.
– Fica aí!
– Tenho o que fazer, agora.
– Então tá. Tchau.
No outro dia a moça (menina, mulher ou como você queira chamar) morena acorda e percebe que aquilo foi sonho. Ela não conhecia aquela mulata na vida real. Preferiu acreditar, como acontece com o pessoal da tevê, na visita de um ente sobrenatural. Mas se a Vida ou se a Morte, ela não sabia... Tinha que esperar. Se morresse logo, era a Morte... Se vivesse por mais tempo, era a Vida.
Ou talvez as duas... Quem iria saber?
A Morena não precisou responder com palavras. Só seu olhar sério fez a outra começar a falar de novo.
– Ah, qual foi? Todo mundo vai morrer um dia.
– Eu sei, mas não queria que você falasse disso agora.
– Por quê?
– Já disse que não tô afim dessa conversa. Respeite isso.
– É uma coisa que pode acontecer um dia, oras... Você ia querer deixar seu cachorro entregue ao nada?
– Porra, você me tira do sério, viu! Na moral!
A mulata deu uma risadinha convencida e disse:
– Você me ama, mesmo assim.
– Ó, se eu me retar de verdade eu vou embora! Tô dizendo! Ora porra!
Silêncio por uns dois minutos. Elas olham para o nada; uma, aborrecida, outra, pensativa.
– Eu vejo a morte de duas maneiras – fala a Morena. – Quando eu fico viajando pr’onde é que eu vou, como vai ser na hora que eu morrer e pá. Essa daí não dói. Mas quando é da outra maneira acontece diferente... eu fico pensando como é que vai ser se eu perder alguém. Acho que não tô preparada.
– Pô – prossegue a Morena –, eu queria saber como é na hora que morre... Vem um monte de coisa sem nexo na cabeça. Eu não queria ir pra deixar tudo aqui, mas é um mistério que dá pra descobrir. Às vezes, eu queria morrer.
– Se matar? – diz a Mulata
– Podia ser, mas só se tivesse volta.
– Hmm, saquei. Mas a morte não te machuca?
– Também, de vez em quando. Eu começo a sentir saudade diss’aqui, das pessoas, de viver... Acho que sem a morte as pessoas não dariam valor à vida, ao tempo que a gente tem pra viver. E quando eu mais penso na vida, é quando eu penso na morte...
– Saquei. Tô indo... tá tarde.
– Fica aí!
– Tenho o que fazer, agora.
– Então tá. Tchau.
No outro dia a moça (menina, mulher ou como você queira chamar) morena acorda e percebe que aquilo foi sonho. Ela não conhecia aquela mulata na vida real. Preferiu acreditar, como acontece com o pessoal da tevê, na visita de um ente sobrenatural. Mas se a Vida ou se a Morte, ela não sabia... Tinha que esperar. Se morresse logo, era a Morte... Se vivesse por mais tempo, era a Vida.
Ou talvez as duas... Quem iria saber?
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