terça-feira, 30 de junho de 2009

A Mulata, a Morena e a morte

Se você tivesse um cachorro e morresse, com quem ele ia ficar? – perguntou a Mulata.
A Morena não precisou responder com palavras. Só seu olhar sério fez a outra começar a falar de novo.
Ah, qual foi? Todo mundo vai morrer um dia.
Eu sei, mas não queria que você falasse disso agora.
Por quê?
Já disse que não tô afim dessa conversa. Respeite isso.
É uma coisa que pode acontecer um dia, oras... Você ia querer deixar seu cachorro entregue ao nada?
Porra, você me tira do sério, viu! Na moral!
A mulata deu uma risadinha convencida e disse:
Você me ama, mesmo assim.
Ó, se eu me retar de verdade eu vou embora! Tô dizendo! Ora porra!
Silêncio por uns dois minutos. Elas olham para o nada; uma, aborrecida, outra, pensativa.
Eu vejo a morte de duas maneiras – fala a Morena. – Quando eu fico viajando pr’onde é que eu vou, como vai ser na hora que eu morrer e pá. Essa daí não dói. Mas quando é da outra maneira acontece diferente... eu fico pensando como é que vai ser se eu perder alguém. Acho que não tô preparada.
prossegue a Morena , eu queria saber como é na hora que morre... Vem um monte de coisa sem nexo na cabeça. Eu não queria ir pra deixar tudo aqui, mas é um mistério que dá pra descobrir. Às vezes, eu queria morrer.
Se matar? diz a Mulata
Podia ser, mas só se tivesse volta.
Hmm, saquei. Mas a morte não te machuca?
Também, de vez em quando. Eu começo a sentir saudade diss’aqui, das pessoas, de viver... Acho que sem a morte as pessoas não dariam valor à vida, ao tempo que a gente tem pra viver. E quando eu mais penso na vida, é quando eu penso na morte...
Saquei. Tô indo... tá tarde.
Fica aí!
Tenho o que fazer, agora.
Então tá. Tchau.
No outro dia a moça (menina, mulher ou como você queira chamar) morena acorda e percebe que aquilo foi sonho. Ela não conhecia aquela mulata na vida real. Preferiu acreditar, como acontece com o pessoal da tevê, na visita de um ente sobrenatural. Mas se a Vida ou se a Morte, ela não sabia... Tinha que esperar. Se morresse logo, era a Morte... Se vivesse por mais tempo, era a Vida.
Ou talvez as duas... Quem iria saber?

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