quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quem ganha idade perde juízo

Eu nunca mais vou dizer o que realmente penso
Eu nunca mais vou dizer o que realmente sinto

Eu juro, Eu juro (por Deus)

Não confio em ninguém
Não confio em ninguém
Não confio em ninguém com mais de 30
Não confio em ninguém com 32 Dentes

(32 Dentes - Titãs)

Hoje é um dia como outro qualquer, como outro qualquer”. É o que venho repetindo pra mim mesma há exatos trinta e um minutos. Desliguei meus celulares e fechei a porta do meu quarto. Como se isso fosse adiantar algo. Como se eu fosse grande coisa contra o tempo. É só questão de horas até o dia amanhecer e meus pais virem me abraçar antes que todo mundo; é só questão de horas até começarem a surgir ligações e mais abraços. Mas, sinceramente, e não querendo desmerecer a boa vontade de ninguém, preferia não sentir nenhum desses abraços nem receber nenhuma dessas ligações. Estou triste e necessitada. Sinto um peso a mais dentro de mim. Um peso que não vai goela a baixo direito, ficando entalado entre a garganta e o peito... Um peso por estar completando hoje, dia sete de abril de dois mil e dez, dezoito indesejados anos de vida. Não que ter vivido esses anos foi uma merda ou algo do tipo, mas não queria estar atingindo minha maioridade hoje. Só isso.

Minha infância foi a melhor fase da minha vida e sempre vai ser, eu tenho certeza. Utilizo de palavras batidas: uma pena eu ter percebido isso somente depois dela ter-se ido. Que saudade de quando brincar de boneca tinha graça, que saudade da época que eu poderia realmente chamar Doug Funnie de funny, que saudade de quando meu pai me levava e minha mãe me buscava na escola! E que saudade de não ter noção do quanto as coisas podem ser imprevisíveis, gigantes e assustadoras! Realmente: é inegável a beleza de ser criança!

Também não vou tachar as crianças de puras e inocentes. Infelizmente ninguém se salva da sujeira humana, uma vez que começa a lidar com as pessoas. Às vezes só me resta rir de alguns absurdos que nos rondam. Queremos ensinar nossas crianças. Ensiná-las a serem do bem, enquanto nós mesmos somos a falta da Moral em conjunto; ensiná-las a serem educadas, enquanto essa porcaria que chamamos de educação não passa de hipocrisia; e, mais que tudo, ensiná-las e desejar que elas tenham dinheiro, enquanto isso significa competir e se tornar superior ao outro.

Os aprendizes deveriam ser nós. Deveríamos aprender a falar a verdade, pra concluir que muita coisa seria melhor se fosse desse jeito. Deveríamos aprender a ter saco pra ouvir as histórias fantasiosas de nossos filhos e ver nelas, ao invés de bobagens, uma criatividade em construção. Deveríamos ouvir as opiniões ainda superficiais de nossos filhos e, ao invés de dizer-lhes que eles ainda são muito novos e não entendem as coisas direito ou fazer pouco caso do que disseram, notar que estão desenvolvendo sua capacidade racional e discutir com eles sobre o assunto pra ajudá-los a se desenvolver mais ainda.

Pai ou mãe nenhum cria seu filho pra ser uma pessoa de bem. Eles criam seus filhos para que estes consigam se inserir no mundo, de acordo com as características impostas pela sociedade, na qual, como disse Augusto dos Anjos "o Homem, que, nesta terra miserável,/Mora, entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera". E de feras, que passemos a ser como as flores: cândidos, agradáveis e sem causar mal algum.

2 comentários:

Lorena Carvalho disse...

Raisa,

Há tempos que eu venho percebendo em você uma coisa muito boa: você escreve com o coração. Lindíssimo texto, altamente reflexivo e de uma sinceridade tamanha. Meus parabéns!

Com carinho,
Lorena Carvalho.

Raisa Moreno disse...

Então você percebeu o certo. É meu lado sentimental que me incita a escrever, sempre. Eu já disse isso no último texto publicado e repito, com outras palavras: escrever é uma forma de fazer eu amenizar minhas supersaturações. No dia em que eu comecei esse texto, eu tava mal, porque a cada ano que passa eu só faço envelhecer, mas continuo conservando uma imaturidade em mim. E é isso que me assusta. Talvez seja por essa imaturidade que eu veja as coisas como eu vejo. E, acredite, tem vezes que eu me pergunto se não seria melhor se eu estivesse com a mente totalmente inserida no mundo adulto...