segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vento no campo

Ainda que haja essa neblina entre nós dois, você é você e tem as mesmas íris cor de mel tão equilibradas e sedutoras como um campo de trigo. Agora mesmo estou escrevendo de frente para aquele sofá onde você sentava para ler, usar seu notebook ou fazer qualquer outra coisa. Juntos, nós éramos poesia. Sempre gostei de "ser seu vigia catando a poesia que entornas entornavas no chão sofá". Às vezes te olhava enquanto dedilhava meu violão, outras vezes eu te percebia só pelo seu cheiro forte de cravo, ou só te ouvia quando você cantarolava as músicas com essa vozinha aguda. E cada música tocada por mim tinha você no meio: ou nas letras, ou na melodia ou na maneira como eu tocava.
Já são duas semanas e meia sem você dormindo na nossa cama... Agi como "um cachorro otário correndo atrás dos carros" quando, nesse espaço de tempo, deixei outra mulher deitar-se nela só por você não estar mais aqui para eu te abraçar e sentir seu abdomén estufando e murchando, enquanto você respirava depois de fazermos amor. Ela é mais bonita. Me pus a observá-la enquanto dormia, nua; realmente mais sensual que você, porém sem o mesmo encanto. Nunca te disse, mas eu já perdi horas de sono por várias noites só te vendo dormir. É realmente espantoso e mágico como alguém consegue ser alicerce de outra pessoa o tempo todo: se não era com suas palavras conclusivas e seus olhos meio cerrados prestando atenção às minhas queixas e elogios sobre essa vida agridoce, o seu sono te tornava até imaculada, veja só. Lembro que minha mente fazia várias voltas enquanto meus olhos ficavam hirtos no seu rosto e nos seus braços só colhendo a amenidade necessária para meus pensamentos se tranquilizarem.
E, sabe... não me sinto sozinho, me sinto um idiota. Para mim, a gente só se encontra com a Solidão quando ela vem substituir o vazio de qualquer coisa outrora companheira da gente. E eu me sinto acompanhado por você. Só consigo lembrar dos inúmeros bons momentos ao seu lado e daquelas brigas preludiais de um belo jantar a dois. Deve ser a esperança de...
Às vezes a gente precisa de motivação, então costumamos dizer: "com ou sem quem a gente ama, a vida continua". Não é o caso de um cara louco, sentimental e apaixonado por "uma mulher tão autoconfiante e acolhedora", como disse, perfeitamente certo, o outro que levou seus olhos de trigo numa lufada de vento.

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