O fato de tê-lo visto quatro vezes e nunca termos sequer nos beijado me deixou mais apaixonada ainda. Não significa que não queríamos nos beijar: queríamos sim; e muito. No meu entendimento, ele estava ao meu lado porque realmente gostava da minha companhia e até nossa timidez para dar um passo a frente era linda. Ela me fazia imaginar como seria, onde seria e qual seria nossa reação, das mais diversas formas possíveis, depois do nosso primeiro beijo.
O dia no qual fomos ao cinema foi o mais marcante pra mim. Assistimos normalmente ao filme, porém ao fim da sessão, enquanto as outras pessoas na companhia de suas crianças deixavam a sala escura com aquelas poucas luzes acesas, ele continuou sentado, como se esperasse o momento certo pra ficar mais próximo ainda de mim. Meu estômago embrulhava, meu coração acelerou ligeiramente e eu não o encarei de frente enquanto ele me olhava perguntando se eu tinha gostado do filme. E fui respondendo que "sim, embora esteja com um pouco de sono", como se ainda tivesse doze anos e nunca tivesse beijado ninguém em toda a minha vida, tentando manter meu corpo o mais distante possível do dele. Ah, como eu queria que meus olhos pudessem filmar tudo o que se passa quando a gente vive esses momentos marcantes! Pareceria estar gravando uma cena romântica de qualquer história.
Depois continuamos no shopping por algumas maravilhosas horas. Fomos à procura de algo para comer, pois embora tivéssemos nos encontrado depois de meio-dia e àquela altura do campeonato já fosse em torno de três da tarde, ele não tinha almoçado. Enquanto caminhávamos, volta e meia ele colocava as mãos sobre os meus ombros na intenção de um abraço e ficava perto de mim com seu cheiro tomando conta de minhas narinas. Não sei o nome do perfume, mas ele era embriagante. Eu reconhecia aquele odor de outras pessoas quaisquer, porém para mim era o cheiro dele, pois era - e é - o aroma que eu sinto ao lembrar dele, o que me entorpecia, me fazia suspirar e cerrar os olhos como se eu estivesse dentro do Paraíso. Assim, eu me perguntava como seria quando a gente se beijasse, quando ele roçasse no meu rosto e no meu pescoço aquela barba nunca sequer tocada com a ponta do meu dedo indicador por acidente.
Tenho baixa autoestima, estou muito insatisfeita com minha aparência e isso também contribuiu para minha inércia. Em algumas horas, me sentia estúpida por ficar totalmente sem jeito diante de todas aquelas investidas doces e sutis de tentar externar o que sentíamos um pelo outro. Eu tentava nos manter na Terra, no meio de pessoas, de lojas, de corredores iluminados. Eu tentava não levar nós dois ao Inferno rumo ao Paraíso.
Às quase cinco horas, ele precisou se despedir por causa do ensaio de sua banda. Sempre dói um pouquinho dar tchau a quem você gosta, mas é válido quando te gera boas lembranças. Mais uma vez eu queria ter uma câmera que pudesse registrar um momento nosso. Ele se virou pra mim, com a segunda cerveja da tarde na sua mão, olhou fundo nestes olhos lindos, e, como quem queria levar um beijo de despedida mas não queria ir, me perguntou: "a gente se vê de novo?" Morri de vergonha novamente, queria não ter dito nada, apenas responder tocando meus lábios tingidos com um batom provavelmente rosa pink ou rosa antigo nos dele e depois ter sorrido. Esta era minha expectativa. Contudo, na realidade eu arqueei um pouco minhas sobrancelhas e balancei a cabeça, falei "aham" e dei-lhe um abraço amarelo, desejando bom ensaio.
Deste jeito mesmo, fugi para o ponto de ônibus e peguei a minha condução. Lá dentro, pus música românticas para tocar. Pelos ouvidos, eu chegava ao Paraíso que não ousei entrar com minha boca.
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