Eu odeio me questionar demais. Quando
faço isso, perco todas as minhas certezas e é bem incômodo, porque perco a minha
identidade e me afasto da minha essência.
Olhando de fora, eu não diria ser possível se desencaixar do próprio âmago,
mas vejo que é.
Todos os dias eu tenho enfrentado uma guerra
que eu insisto em dizer que não é uma guerra. Simplesmente tenho preguiça de
fazer tudo e me acho uma grande comodista filha-da-puta. Eu sempre tenho que me forçar a alguma coisa:
me forço a me levantar pra ir caminhar, me forço a escovar os dentes, me forço
a pentear o cabelo, a calçar meu tênis e a tomar banho. É bem difícil eu fazer
algo espontaneamente. E agir com espontaneidade é fazer de coração. Eu não faço
de coração.
Se eu pego um livro pra ler é porque uma voz
interna me diz “Raisa, você precisa ler/você precisa conhecer as coisas/você
precisa ter o texto fixado pra discutir em sala de aula”. Se eu ouço uma música
nova, é porque a mesma voz interna me diz “Raisa, você gosta de música e isso é
ótimo, mas que tal parar de ser tão repetitiva?”. São dois exemplos e acontece
com quase tudo. Uma das poucas coisas que faço porque realmente gosto é comer. Também
Gosto de ouvir os outros e observar suas idiossincrasias.
Me sinto inútil quando paro de me
forçar, quando me dou um descanso – é o meu típico autoabandono de domingo. Eu me sinto inútil no ócio, mas também gosto
demais dele. Um amor tóxico, eu posso afirmar. Uma frustração cíclica, também
constato. O negócio é que dói depois, quando eu paro pra pensar que estou
desperdiçando meu tempo e que sou colecionadora de dias perdidos. “Quando eu
vou me tornar poliglota?” “Quando eu vou ter viajado?” “Quando eu terei
conhecido várias coisas?” Essas perguntas me angustiam quando vejo outras
pessoas que engrandeceram e olho pra mim e vejo um cocô. Eu só quero o
resultado, mas não quero os meios.
Talvez eu não queira dar aos meus
problemas a dimensão que eles realmente têm. Eu não gosto de mexer no meu
passado, pensar na minha vida, pois isso sempre implica em pisar na areia movediça.
Tenho forte tendência a acumular doenças que nem sei se tenho (especialmente as
psíquicas), a fugir de mim, a tentar ser semelhante aos outros. E pra quê?! Por
quê?!
Eu estou perdida. Eu estou
sozinha. E as palavras parecem não ter a devida força para expressar o que
quero que elas expressem. Queria férias da minha mente. Olho pra as pessoas e
invejo elas: parecem ter as vidas tão certinhas, enquanto eu realmente me sinto
a diferentona. Eu não vejo mil seriados, como elas. Na verdade, eu só vejo
seriado porque me esforço, me obrigo. Não é que eu não goste: eu até gosto, mas
as a inexistência de um seriado na minha vida deixa ela normal – isso até o
momento em que as pessoas comentam de seriados e eu fico boiando, me sentindo uma
fdp.
Estar escrevendo esse texto é um
ato de esforço também, afinal eu poderia guardar isso tudo na minha mente
solitária e inquieta, se ela ainda tivesse algum espaço. Embora não seja
eletrônico, ela também parece ter um hd
(e é preciso esvaziá-lo). Se o hd de
um computador estiver cheio, a máquina fica danificada, de alguma forma. Se sua
mente estiver cheia, ela também danifica: enlouquece!
Eu tenho muito medo, um medo silencioso,
ou melhor: um medo silenciado. Eu silencio minhas chatices, minhas exigências...
pois elas são inúmeras. Eu não sei conviver com gente e detesto ter que me ocultar,
conter minhas feras, meus demônios. Tenho medo de olhar pra mim e descobrir que
eu, na verdade, sou como nunca deixei de ser. Eu sempre quero mais, eu tenho ambição.
Eu me faço desafios que eu não cumpro. Eu cansei de ser eu. Não importa quem me
adora: ninguém nunca vai me conhecer de verdade. E isso é angustiante.
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