Olhei para toda esta página e notei logo: "preciso mudar isso aqui!" . Sim, preciso mudar pelo simples e grande motivo deste blog não mais me traduzir. Porque, segundo meu poético e querido Basil, "numa obra, quem se revela é o autor".
Analisando bem, sempre acatei sua observação na minha vida de artista (amadora, não esqueçamos). Sempre fui de guardar as feridas para mim, porém, em contrapartida, quase nunca fiz questão de não mostrar que algo em mim doia: pelo semblante, pela voz, pelo jeito de me arrumar e - claro - pelos meus textos, o que eu sentia era sempre visível. Cento e duas metáforas passaram pela minha cabeça como uma possível forma de começar a discorrer esta postagem (a qual já comecei a escrever) mas não sei qual usar.
Uma delas envolvia minha paixão pelo preto-e-branco. Amo cores e tenho uma queda terrível pela combinação preto-e-branco, seja ela em roupas ou não. No trabalho minhas colegas reclamavam comigo pelo excesso de cores descombinadas entre si e eu, me achando linda, brincava: "ah, eu sou um arco-íris mesmo, dou cor a esse setor". Se meu espírito tivesse cor, com certeza ela seria cinza. Melhor não: não gosto de cinza... Melhor seria ele se ele fosse listrado, que nem uma zebra: preto-e-branco-preto-e-branco. Porque é assim que eu me sinto, leitor. Descobri que eu não sou uma mistura de nada; sou uma mescla de preto e branco.
E agora faço uma grande e breve confissão: eu estive preta por dentro e branca por fora por muito tempo. Fui tão prudente, tão higienista, tão calculista, tão comedida que não me sujei mais. Pequei feio, errei demais, afinal o grande pecado de quem é limpo é deixar de ser sujo. Maybe you understand.
Segurei meus defeitos, minhas pungências e andei a pé por muito, muito tempo com eles até atingir o apogeu do cansaço; ou eu morria ou me desfazia daquele peso. Optei pela segunda alternativa: meus defeitos agora caminham por si só e minhas pungências estão no lixo de um lugar qualquer. Me sinto repleta de paz agora... Carrego risadas, pessoas lindas que corri atrás, ânimo, otimismo e um pouco de perseverança, mas agora me sinto leve, porque tudo isso é como algodão: volumoso, me preenchendo por completo; leve e branco, como a serenidade.
E pela primeira vez na vida compreendi quem fala: "eu não me arrependo de nada", porque carregar todo aquele peso sozinha, ter a alma preta por dentro foi intenso e me mostrou muitas coisas. Não me arrependo, mas cansei mesmo. Agora a história é outra, a vida é outra, o extremo é outro.
Acho que eu não consigo ser cinza, não consigo ser a mistura de duas cores: ou é oito ou oitenta, ou é preto ou é branco, ou é muito ou é pouco. E é disso que eu realmente gosto. Sou uma zebra.

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