sexta-feira, 16 de novembro de 2012

À ventura (parte I)

-Não.
Mais um não. Caso ouvisse mais um não, iria fazer a coisa mais dolorosa dos últimos meses; se a resposta fosse um sim, a felicidade de alguém estaria ganha e a de outra pessoa perdida para sempre.
-Boa tarde.
-É o cachorro?
-Sim, é que eu ach...
-Olhe pra mim: saí  da cozinhar pra vir lhe atender e você acha que eu tenho tempo para cuidar de cachorro? Não.
Foi assim que tomei a infeliz decisão de largar o pequeno cachorro na rua. Bati em em mais de vinte portas e até fui em alguns estabelecimentos comerciais de bairro na fé de encontrar um lar para o bicho. Era um filhote um tanto crescido, tinha o pelo lustroso e curto, preto e dourado; não cheirava mal; tinha as orelhas caídas e os olhos castanhos.
Durante minha vida desenvolvi, como acontece com qualquer outra pessoa normal, um lado afetivo facilmente conquistável por bichinhos e bebês. E se eu acreditasse em Destino, diria que o cãozinho fora trazido por ele a fim de enfeitar minha vida, pois já tinha ganhado dezenas de lambidas no rosto e nos braços e até um "não me deixe aqui" em forma de choro quando o pus no chão para mexer em minha bolsa. Vontade de levá-lo para minha casa não faltava.
Entretanto, meus animais de estimação não passaram de dois peixes betas (um deles eu quase matei acidentalmente, quebrando o aquário) e um passarinho do qual nem me lembro (tinha dois anos na época).  O principal motivo para não fazer uma espécie de zoológico doméstico em casa foi minha mãe. As alegações eram - e ainda são - várias: "você não vai cuidar direito", "bicho dá gasto", "é ruim quando morre porque a gente já se apegou" et cetera.
Olhei para ele sem a mínima coragem de entregá-lo à vida de rua e chorei. Como desculpa para passarmos mais tempo juntos, inventei de ir ao petshop que fica sob a minha casa: saí de lá com ração para filhotes (óbvio) e uma bolinha de borracha na intenção de fazer a tarde ser divertida para nós dois.
Canino alimentado, fomos a um pequeno largo próximo à minha rua nos distrair com uma atividade mecânica, mas graciosa: eu jogava a bolinha em algum lugar próximo a nós e ele saia com a maior ligeirice que um filhote poderia alcançar. O observava achando graça e mudei de ideia sobre amor à primeira vista: sim, ele poderia acontecer, desde que fosse entre cães e humanos. E eu e meu mascote temporário éramos as provas vivas disto.
Mas nossa diversão não durou mais de dez minutos. Bem, na realidade a coisa mudou de diversão para aventura. Vou explicar: nunca fui boa de pontaria, então não é supresa que uma hora a bola tenha parado em um lugar inalcançável pela pequena alma de raposa que me fazia companhia naquele fim de tarde.
Havia algumas árvores, cujos caules estavam inseridos numa espécie de vaso gigante que nos serviam como bancos (eu não sei o nome daquilo) e foi ali dentro onde a bolinha verde-neon caiu. Me dirigi até lá e me deparei com um cartaz. Era colorido, em papel couchê com o fundo azul clarinho. No topo, em caixa alta, Verdana, tamanho 72 talvez, negrito: 
PROCURA-SE
Sob este título estava a foto bonita de um cãozinho preto e dourado lambendo o café derramado de um copo virado no chão. Pelo reflexo no líquido de cor turva, via-se que era manhã. Abaixo da imagem, uns versos:
  
Fiz aquele anúncio e ninguém viu
Pus em quase todo lugar
a foto mais bonita que eu fiz

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