quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Não fuja da dor, desligue a tevê

Eu estava pensando: se eu parasse e contasse a alguém as coisas mais marcantes que eu vivi até hoje, o que eu senti com isso, tudo bem detalhado, no fim a pessoa iria me falar algo como: "que coisas, hem! Que história a sua!" Não. Minha vida é normal como a de todo mundo. Passei por turbulências, como deve ser. Absolutamente normal. E aí a pessoa me olharia meio de cara feia. Posso estar me gabando, mas eu preciso dizer: desta vez a razão é minha.
Sinceramente, pra mim a gente faz de sofrimento algo a não ser vivido, que deve ao máximo ser evitado. É certo que não é uma coisa legal de estar sentindo, mas é necessário e com certeza vai acontecer.
O caso é: tem sempre alguém muito poderoso mostrando pra nós como, supostamente, tudo deveria ser. Um filme no qual o protagonista sofre, sofre e sofre e acaba bem e feliz. Mas será que depois daquela cena sob um céu lindo, no parque, num dia ensolarado o cara não pode ser atropelado ou receber uma ligação avisando que a mãe dele morreu? Não, mas não! As pessoas nem pensam nessa possibilidade!
A mídia sempre faz questão de pôr a cena final assim, com a felicidade à mostra. E este sempre é o problema, pois nos convence de que dali em diante as preocupações do personagem acabaram e ele vai ser sempre feliz. Daí caímos na tolice de achar que há possibilidade disso também acontecer conosco. Mas por que não ser triste? Por que ser sempre feliz? Não sei responder, afinal gosto da felicidade. Eu gosto da felicidade! Escolho ela, porém reconheço o sofrimento como natural e tolero ele. Não é que eu o aceite assim, de mão beijada. Procuro consolo com alguém ou tento me livrar dele de certa forma ou de outra, dentro de uma maneira normal de agir, contudo acho-o realmente necessário.

Repugnante é esse hábito da pessoa chegar em casa depois de um dia chato, trivial e monótono da rotina, sentar no sofá em frente à TV para acompanhar com gosto a droga (quase literalmente falando) de uma novela cujo final ela já sabe que vai ser feliz, mas faz questão de assistir pra se embebedar com doses de uma vida igual a de seus sonhos. Isso sem contar com esses comerciais consumistas em que tudo é só alegria, feitos só pra não dar descanso ao nosso momento de narcotização audiovisual.
A mídia, o consumismo e o mundo mostra a cada um de nós que a vida deve ser sempre azul. Não é por aí - alguns dos azuis de nossas vidas se desbotam e não é todas as vezes que eles tornam a ser o que eram nem ficam mais intensos. Não vai chegar um dia em que estaremos mergulhado num mar de rosas, é preciso enxergar isso. A vida não é boa, ruim tampouco injusta - é algo a ser experimentado com todas as sua
s mordidas e assopros, beijos e tapas, dores e afagos.

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